Você tem um imóvel no Airbnb e a receita mensal parece boa no extrato. Mas 2026 mudou três coisas ao mesmo tempo: a taxa que a plataforma cobra, o que a Receita Federal já sabe sobre você, e como a reforma tributária trata esse tipo de aluguel. A maioria dos proprietários ainda não refez essa conta.
Este guia refaz. Sem o discurso de quem vende curso de Airbnb, e sem o alarmismo de quem quer te convencer a fugir dele. Os números, verificados um a um, e uma resposta honesta: para quem ainda vale a pena, e para quem não vale mais.
Foto: Eduardo Zmievski via Unsplash — Beira-Mar Norte, Florianópolis
Os dois players do mercado
Booking e Airbnb dominam o aluguel de temporada no Brasil, e é comum ouvir que um atende turista estrangeiro e o outro, turista nacional. Não é bem assim: os dois têm forte demanda doméstica, e a proporção entre hóspede nacional e internacional varia mais por cidade do que por plataforma.
A diferença entre as duas, na prática, está menos no público e mais na taxa que cada uma cobra do anfitrião, e é aí que a conta de 2026 muda.
A taxa do Airbnb mudou
Se você ouviu dizer que a taxa do Airbnb subiu para 16%, a informação é real, mas incompleta. Não houve um aumento simples de uma taxa única. O Airbnb está migrando de modelo de cobrança.
No modelo antigo, chamado de taxa dividida, o anfitrião paga 4% sobre o valor da reserva, e o hóspede paga uma taxa de serviço separada, entre 14,1% e 16,5%. No modelo novo, chamado de taxa única, é o anfitrião quem paga sozinho, e a taxa pode chegar a 16% sobre o valor da reserva. O hóspede não paga nada a mais.
A migração começou por volta de outubro de 2025 e segue em rollout por segmento de anfitrião ao longo de 2026. Não existe uma data única de “aumento”: existe uma troca de modelo, que desloca o peso da taxa para dentro do seu repasse.
Na prática, isso significa que dois anfitriões podem estar em modelos diferentes hoje, com margens diferentes, sem que nenhum dos dois tenha feito nada de errado. Vale conferir em qual modelo o seu anúncio está.
O Fisco já pediu seus dados
Por anos, alugar via Airbnb sem declarar a renda foi comum. A plataforma não enviava informação nenhuma à Receita Federal, e boa parte dos proprietários tratava esse dinheiro como renda invisível.
Isso mudou. A Receita Federal fez uma solicitação formal ao Airbnb, e a empresa confirmou publicamente que atendeu: forneceu nome, CPF ou CNPJ, endereço e valores de transações de anfitriões, cobrindo o período de setembro de 2020 a dezembro de 2024. O pedido teve base no poder geral de fiscalização da Receita, previsto no Código Tributário Nacional.
Ainda não existe uma lei que obriga o Airbnb a reportar seus ganhos automaticamente todo ano — foi um pedido pontual, retroativo, que a Receita já fez uma vez e pode fazer de novo. Para quem nunca declarou, o precedente já existe, e ele muda o cálculo de risco.
A reforma tributária pesa mais sobre a temporada
Aqui está o ponto que menos proprietários entendem, e o que mais pesa na conta de 2026: a Reforma Tributária, a Lei Complementar 214/2025, não trata o aluguel de temporada como o aluguel anual. Trata como serviço de hospedagem.
A regra dos 90 dias
O artigo 253 da lei estabelece que a locação residencial por até 90 dias ininterruptos, quando o locador se enquadra como contribuinte do novo regime, segue as mesmas regras aplicadas a hotéis e pousadas. Não é mais só “alugar um imóvel”. Para o Fisco, passa a ser prestar um serviço.
Quem se enquadra como contribuinte
O artigo 251 estabelece dois critérios, e eles precisam valer ao mesmo tempo: receita com locação acima de R$240 mil no ano anterior, e mais de três imóveis distintos alugados. Um proprietário com dois imóveis, mesmo faturando bem, não entra nessa regra. Um proprietário com quatro imóveis e receita relevante, entra.
A diferença de carga tributária
A diferença de carga entre os dois regimes é real e mensurável, e maior do que parece à primeira vista. A locação residencial comum tem uma redução de 70% na base de cálculo do IBS e da CBS, o que resulta numa alíquota efetiva em torno de 8,4% desses dois tributos. A locação de temporada, enquadrada como hospedagem, tem redução de apenas 40%, o que leva a uma alíquota efetiva de IBS/CBS em torno de 16,8%, quase o dobro.
Somando o imposto de renda, que incide por cima e pode chegar a 27,5% na faixa mais alta, e a carga total de um proprietário pessoa física em temporada, no sistema pleno de 2033, pode passar de 44%. No aluguel anual, a mesma soma fica perto de 36%. Não é um imposto novo isolado: é o IR de sempre somado a um IBS/CBS que trata a temporada como hospedagem, não como locação.
Vale uma correção importante: não é verdade que todo proprietário que aluga por Airbnb vai pagar essa carga mais alta em 2026. A própria Receita Federal já desmentiu essa generalização, a tributação pelo novo regime só atinge quem se enquadra nos critérios cumulativos do artigo 251, os R$240 mil e os três imóveis que você viu acima. Um proprietário com um ou dois imóveis, abaixo desses limiares, segue apenas no Imposto de Renda de sempre, sem o IBS/CBS.
Quem nunca declarou, atenção
Se você é dos proprietários que alugaram via Airbnb sem declarar nada, os próximos parágrafos importam mais do que os anteriores.
A multa
A multa por omitir rendimento de aluguel na declaração de Imposto de Renda é de 75% sobre o imposto devido, prevista no artigo 44 da Lei 9.430/96. Em caso de fraude, sonegação ou conluio comprovados, essa multa qualificada sobe para 100% sobre o débito tributário — não os 150% que muita gente já ouviu falar; esse percentual foi reduzido pela Lei 14.689/2023. Mas os 150% não desapareceram: eles voltam a valer num caso específico, que você vê a seguir.
Os cinco anos de retroatividade
O Fisco pode cobrar retroativamente. O prazo para a Receita lançar esse crédito, quando não houve declaração nenhuma, é de cinco anos, contados a partir do primeiro dia do exercício seguinte ao ano em que o lançamento poderia ter sido feito. É o artigo 173, inciso I, do Código Tributário Nacional. Há um detalhe técnico em discussão no STJ sobre qual prazo se aplica em cenários específicos de omissão parcial, mas para quem nunca declarou nada, a regra dos cinco anos é a que vale.
A multa sobe se você reincidir
Existe um agravante que a maioria desconhece. Se dentro de dois anos de uma autuação anterior o Fisco constatar nova conduta dolosa do mesmo contribuinte, a multa qualificada deixa de ser 100% e volta a 150% sobre o débito tributário. É a reincidência prevista no artigo 44, parágrafo 1º-A, da Lei 9.430/96, incluído pela mesma Lei 14.689/2023 que reduziu o percentual padrão. O Supremo já confirmou essa escala ao julgar o Tema 863 de repercussão geral: 100% é o teto para fraude comprovada isolada, 150% é o teto quando há reincidência.
Some isso ao que você já leu: a Receita já pediu e recebeu dados de anfitriões do Airbnb. Quem alugou sem declarar nos últimos cinco anos tem um risco concreto, não hipotético. Nesses casos — anos sem declarar, dúvida sobre o próprio enquadramento ou risco de reincidência — vale menos economizar na consulta e mais buscar um advogado tributarista e um bom contador antes de agir, para acertar o cálculo e a estratégia de regularização com precisão.
Receita não é rendimento
Aqui mora a confusão mais comum entre quem calcula se o Airbnb vale a pena: olhar para a receita bruta e achar que é o quanto sobra no fim do mês.
Não é. Da receita que entra, saem em sequência: a taxa da própria plataforma, que você viu antes; a comissão de uma administradora, se você contrata uma, a faixa costuma ficar entre 15% e 35% da receita bruta, mas vale confirmar o percentual exato com quem você contratar, porque não há um índice público que consolide isso; o custo de limpeza a cada troca de hóspede; e, diferente do aluguel anual, o condomínio, a água, a luz e o IPTUIPTU — Imposto Predial e Territorial UrbanoTributo municipal anual sobre imóveis urbanos. Base de cálculo é o valor venal — quase sempre abaixo do valor de mercado — definido pela prefeitura.Ver tudo →, que na temporada costumam ficar por conta do proprietário, não do hóspede.
No aluguel anual, é o inquilino quem paga a maior parte dessas despesas recorrentes. No aluguel de temporada, é você. A receita de um imóvel em Airbnb pode até ser maior, em número absoluto, do que a de um aluguel anual equivalente. O que sobra no fim, depois de todas essas saídas, costuma ser uma conta bem mais apertada do que o extrato bruto sugere.
O desgaste que ninguém calcula
Existe um custo que raramente entra na planilha: o desgaste do imóvel. A alta rotatividade de hóspedes de um Airbnb tende a acelerar o desgaste de móveis, pintura e itens de decoração, mais do que um inquilino fixo morando no mesmo lugar por anos.
É importante ser honesto aqui: não existe um índice público que meça essa diferença com precisão. É uma inferência razoável do setor, baseada no bom senso de como um imóvel se comporta sob uso intenso e trocas constantes, não um dado fechado. Mas vale entrar na conta como um custo recorrente, mesmo sem número exato: reformas de manutenção mais frequentes do que num aluguel anual equivalente.
Pra quem ainda vale a pena
Juntando taxa, tributação, custos operacionais e desgaste, chega a pergunta que interessa: para quem o Airbnb ainda compensa em 2026?
A resposta está na forma como você opera, não no imóvel em si. Vale a pena para o proprietário com poucos imóveis, que administra tudo sozinho: recebe o hóspede, limpa ou contrata a limpeza diretamente, resolve os problemas sem intermediário. Sem pagar comissão de administradora, a margem que sobra ainda compensa a taxa da plataforma e a carga tributária mais alta.
Deixa de valer a pena, ou passa a valer bem menos, para quem precisa pagar uma administradora, uma equipe de limpeza terceirizada e ainda arca com a nova tributação. Nesse cenário, as saídas se acumulam mais rápido do que a receita cresce, e o que resta pode ficar abaixo do que o mesmo imóvel renderia num aluguel anual, com muito menos trabalho.
A regra não está no bairro, no padrão do imóvel ou em quanto ele fatura por noite, e sim em quantas mãos tocam essa operação entre a reserva e o dinheiro no seu bolso.
Vale registrar dois detalhes que ajudam quem tem poucos imóveis. Primeiro, a lei prevê um redutor social de R$600 por imóvel ao mês, descontado diretamente da base de cálculo do IBS/CBS, o que reduz a carga de quem opera em menor escala. Segundo, quem se enquadrar como contribuinte pode considerar estruturar a operação como pessoa jurídica, no lucro presumido: a carga estimada fica entre 19% e 22%, bem abaixo dos mais de 44% da pessoa física em temporada. É uma decisão que exige avaliação caso a caso, não uma recomendação genérica.
O caso dos estúdios
Foto: Danilo Rios via Unsplash
Para quem tem um estúdio ou kitnet, especialmente perto da UFSC, vale um parêntese à parte. É comum ouvir que o aluguel desse tipo de imóvel despencou nos últimos anos. Os dados não confirmam isso: em bairros como Trindade e Itacorubi, o aluguel residencial subiu, não caiu, nos últimos doze meses.
Existe outra ideia equivocada por trás dessa dúvida: a de que aluguel de temporada só compensa perto da praia ou em bairro turístico. Essa leitura ignora que Florianópolis desenvolveu um perfil turístico rico e plural que vai muito além do litoral — e a Trindade é um exemplo direto disso. A região concentra cursos de formação como os da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros, além do fluxo constante da UFSC: mestrandos, doutorandos, pesquisadores visitantes, participantes de eventos acadêmicos e de extensão que passam dias ou semanas na cidade. É uma demanda real de estadia curta que quem mora na região dificilmente enxerga no dia a dia, mas que sustenta ocupação de temporada mesmo longe da orla.
O que é real é a pressão que vem pela frente. A oferta de estúdios voltados a estudantes está aumentando de verdade, com novos empreendimentos lançados perto da UFSC nos últimos dois anos. A demanda por moradia estudantil segue forte, mas com mais opções chegando ao mercado, é razoável esperar que o crescimento do aluguel desacelere, mesmo sem ter caído até aqui.
Para quem pensa em Airbnb ou aluguel anual num estúdio nessa região, o momento pede atenção a essa tendência, não pânico com uma queda que ainda não aconteceu.
Alternativas para quem está saindo do Airbnb
Se a conta não fechou depois de tudo isso, existem caminhos, não só a opção de continuar operando no prejuízo relativo.
Um deles é vender o imóvel pequeno, pensado para temporada, e comprar um maior, com perfil que agrada mais quem busca aluguel anual: famílias, profissionais, quem quer morar por anos, não por dias. Outro é simplesmente recalibrar o preço do aluguel anual para o valor real de mercado, o que costuma gerar demanda suficiente sem passar pelo desgaste operacional da temporada.
Nenhuma das duas é automática nem garantida. As duas exigem entender o momento certo de vender, comprar ou reprecificar, o que é justamente onde uma curadoria imobiliária que acompanha o mercado de perto faz diferença.
Perguntas frequentes
Quanto rende um Airbnb por mês em Florianópolis?
Depende menos do imóvel e mais de quem opera. Antes de olhar para a receita bruta, é preciso descontar a taxa da plataforma, a comissão de administradora se houver, a limpeza e as despesas fixas que na temporada ficam com o proprietário. O que sobra no fim do mês costuma ser bem menor do que o valor que aparece no extrato de reservas.
O que compensa mais, Airbnb ou aluguel anual?
Não existe resposta única. Compensa Airbnb para quem tem poucos imóveis e administra tudo sozinho, sem pagar administradora nem faxina terceirizada. Compensa aluguel anual para quem prefere previsibilidade, menos trabalho operacional e não quer arcar com a carga tributária mais alta que a reforma aplica à temporada.
Quais são os pontos negativos do Airbnb?
A taxa da plataforma, que pode chegar a 16% no modelo atual; a tributação mais pesada depois da reforma, que pode passar de 44% de carga total para quem se enquadra como contribuinte, contra cerca de 36% no aluguel anual; os custos que ficam com o proprietário, como condomínio e limpeza; e um desgaste do imóvel provavelmente maior, pela alta rotatividade de hóspedes.
Qual é a taxa que o Airbnb cobra?
Depende do modelo do seu anúncio. No modelo antigo, de taxa dividida, o anfitrião paga 4% e o hóspede paga separadamente entre 14,1% e 16,5%. No modelo novo, de taxa única, em rollout desde outubro de 2025, é o anfitrião quem paga sozinho, e a taxa pode chegar a 16% sobre o valor da reserva.
Airbnb vale a pena em Florianópolis?
Vale para o proprietário com poucos imóveis que administra tudo diretamente, sem intermediários. Deixa de valer, ou vale bem menos, para quem precisa pagar administradora, equipe de limpeza e a nova carga tributária ao mesmo tempo, nesse caso, o aluguel anual costuma render mais líquido, com menos trabalho.
O que fazer com essa conta
Se você chegou até aqui e se reconheceu no primeiro grupo, o que administra sozinho e ainda fecha a conta no azul, o Airbnb continua sendo uma escolha razoável em 2026. Vale só refazer os números com a taxa e a tributação atualizadas, porque a margem provavelmente encolheu desde a última vez que você calculou.
Se você se reconheceu no segundo grupo, entre pagar administradora, faxina e a carga tributária mais alta, vale considerar se o trabalho ainda compensa o que sobra. Às vezes a resposta é mudar para aluguel anual. Às vezes é continuar em temporada, mas com uma gestão que realmente otimize o que hoje está sendo desperdiçado em ineficiência operacional.
A Regente acompanha esse mercado de perto, os dois lados dele, e ajuda proprietários a decidir com números reais, não com a média de mercado. Se você quer revisar a conta do seu imóvel, fale com um consultor.




