A história de Florianópolis não começa em 1748, com a chegada dos açorianos. Nem em 1673, quando o bandeirante Francisco Dias Velho ergueu a povoação de Nossa Senhora do Desterro. Ela começa muito antes, quando a Ilha ainda não tinha esse nome.
Os primeiros habitantes chamavam esse chão de outra forma. E cada camada que veio depois, a indígena, a açoriana, a das ondas de imigração, deixou uma marca que quase nunca aparece no cartão-postal. A rocha dos morros tem cerca de meio bilhão de anos (uma história à parte, contada no guia de formação geológica do arquipélago); a história humana é bem mais recente, e é dela que tratamos aqui.
Este é um guia da Ilha em camadas, do primeiro nome ao apelido de hoje, separando o que é fato do que é lenda.
Meiembipe: antes dos europeus
Antes de ser Florianópolis, antes de ser Desterro, a Ilha de Santa Catarina tinha um nome guarani: Meiembipe, algo como “a elevação de montanhas ao longo do mar”. Quem o usava eram os Carijós, grupo guarani do litoral que os europeus encontraram ao chegar.
Mas os Carijós também não foram os primeiros. Milênios antes deles viveram aqui os povos sambaquianos, pescadores e coletores que ergueram montes de conchas ao longo de gerações. A Grande Florianópolis tem mais de 80 sambaquis mapeados. Durante muito tempo eles foram tratados como simples depósitos de lixo. A arqueologia moderna mostrou o contrário: são monumentos funerários, erguidos concha por concha, com sepultamentos no interior.
Da mesma época restam gravuras na pedra. A Ilha do Campeche, a poucos quilômetros de uma das praias mais fotografadas da cidade, guarda a maior concentração de petroglifos do litoral brasileiro, mais de cem registros ainda não decifrados. O sítio é tombado pelo IPHAN e tem visitação controlada. Não são “xilogravuras”, como às vezes se diz, mas gravuras feitas diretamente na rocha.
Os enigmas da Ilha: o que se especula e o que a ciência confirma
A Ilha atrai teorias. Há quem descreva “observatórios megalíticos” no Morro da Galheta e “energias” em torno do Campeche. Vale a distinção honesta.
As pedras do Morro da Galheta são afloramentos graníticos naturais, com centenas de milhões de anos, e o local é tombado como Monumento Natural, não como sítio arqueológico. No Campeche existe de fato um ponto de anomalia magnética, registrado como fenômeno geológico; as narrativas místicas em volta dele, não. E a autoria das gravuras rupestres ainda é debate científico aberto, o que é diferente de mistério esotérico.
Em resumo: há muito o que admirar na pré-história da Ilha sem precisar inventar civilizações perdidas.
Nossa Senhora do Desterro
A ocupação europeia começa por volta de 1673, quando Francisco Dias Velho funda a povoação de Nossa Senhora do Desterro. Ela vira vila em 1726. A virada acontece a partir de 1748, com a chegada em massa de imigrantes açorianos e madeirenses, algo entre quatro e seis mil pessoas ao longo dos anos seguintes.
Foi essa gente que moldou a cultura que hoje se chama manezinha: as freguesias do Ribeirão da Ilha e de Santo Antônio de Lisboa, o casario colorido, a farinha de mandioca, a renda de bilro. A Coroa portuguesa também fortificou a entrada da baía com um sistema de defesa projetado pelo engenheiro Silva Paes: as fortalezas de Anhatomirim, Ponta Grossa, Ratones e Araçatuba, algumas visitáveis até hoje.
O mar como espinha dorsal
Por quase dois séculos, a vida da Ilha girou em torno do mar. A economia colonial se sustentava na farinha de mandioca, moeda de troca e produto de exportação, e na baleação, com armações que processavam o óleo das baleias. O porto do Desterro ligava a Ilha ao resto do país, e a travessia para o continente dependia de barcos e balsas.
Isso mudou em 13 de maio de 1926, com a inauguração da Ponte Hercílio Luz, a primeira ligação fixa entre a Ilha e o continente. Ela ficou quase 28 anos interditada e só reabriu em dezembro de 2019. Até hoje é o principal símbolo da cidade. (A engenharia rara da ponte e sua história de valorização estão nos guias específicos sobre a Ponte Hercílio Luz.)
De Desterro a Florianópolis
A cidade nem sempre teve o nome atual. A mudança veio de um episódio duro. Durante a Revolução Federalista (1893-1895), Desterro foi tomada pelos revoltosos da Armada, e prisioneiros foram fuzilados na Fortaleza de Anhatomirim.
Com a derrota dos federalistas, a cidade que apoiara o lado perdedor foi rebatizada em 1894 como Florianópolis, “a cidade de Floriano”, em homenagem ao presidente Floriano Peixoto, justamente quem comandou a repressão. O nome que a cidade carrega guarda essa contradição.
As ondas de imigração
Depois dos açorianos, Santa Catarina recebeu novas levas. Alemães e italianos se concentraram no interior e no Vale do Itajaí a partir do século XIX. E veio também a imigração japonesa.
Aqui cabe uma distinção importante: os japoneses não colonizaram a Ilha. A imigração japonesa no Brasil entrou por Santos em 1908, e em Santa Catarina se concentrou no interior e na serra, a partir de 1961. Na Ilha, a presença foi mais discreta e mais tardia. Ainda assim, ela deixou marcas fundas, incluindo um detalhe surpreendente: os primeiros japoneses a pisar no Brasil desembarcaram em Desterro em 1803, náufragos acolhidos no Forte Santana, mais de um século antes da imigração oficial. Décadas depois, nos anos 1950, um pescador de Kagoshima mudaria a pesca do sul da Ilha, história que contamos na série Memória da Ilha.
Por que é a Ilha da Magia
O apelido mais conhecido de Florianópolis vem do folclore açoriano. As levas do século XVIII trouxeram um imaginário povoado de bruxas, benzedeiras, boitatás e assombrações, passado de boca em boca por gerações de pescadores.
Quem transformou esse universo em patrimônio foi o professor e artista Franklin Cascaes (1908-1983), que passou décadas registrando os “causos” da Ilha. Seu acervo está na UFSC. A leitura contemporânea acrescenta uma camada: por trás das “bruxas” havia muitas benzedeiras e curandeiras, mulheres de saber popular silenciadas ao longo do tempo. E a tradição segue viva no Boi de Mamão, reconhecido como patrimônio cultural imaterial da cidade, e na Festa do Divino, celebrada em Florianópolis desde 1775.
As lendas são um fato cultural. Elas existem, foram documentadas e fazem parte da identidade local, sem que isso signifique afirmar o sobrenatural como real.
Perguntas frequentes
Qual é a história de Florianópolis?
A Ilha de Santa Catarina foi habitada primeiro pelos povos sambaquianos, há milênios, e depois pelos Carijós (guaranis), que a chamavam de Meiembipe. A povoação de Nossa Senhora do Desterro foi fundada por Francisco Dias Velho por volta de 1673, recebeu imigração açoriana em massa a partir de 1748 e foi rebatizada Florianópolis em 1894.
Por que Florianópolis se chama assim?
A cidade se chamava Nossa Senhora do Desterro desde a fundação. Em 1894, após a Revolução Federalista, foi rebatizada Florianópolis em homenagem ao presidente Floriano Peixoto, uma escolha controversa, já que a cidade havia apoiado o lado que ele combateu.
Quem fundou Florianópolis?
O bandeirante Francisco Dias Velho estabeleceu a povoação de Nossa Senhora do Desterro por volta de 1673. A cultura local, porém, foi moldada pela imigração açoriana e madeirense a partir de 1748.
Por que Florianópolis é chamada de Ilha da Magia?
Pelo imaginário açoriano trazido no século XVIII: histórias de bruxas, benzedeiras e assombrações passadas oralmente por gerações. O folclorista Franklin Cascaes foi o grande documentador desse universo, que é patrimônio cultural, não afirmação do sobrenatural.
Quantos anos tem Florianópolis?
A povoação de Desterro foi fundada por volta de 1673 e elevada a vila em 1726, mais de 340 anos de história registrada. O nome Florianópolis existe desde 1894.
Conhecer Florianópolis por dentro é saber que cada praia, cada bairro e cada nome carrega uma camada de história que raramente aparece na placa. Da pedra do Campeche ao casario do Ribeirão, a Ilha é feita de tempo.
É esse olhar de curadoria que guia a Regente. Se você quer morar na Ilha com quem a conhece de verdade, fale com um consultor, e acompanhe a série Memória da Ilha, sobre a Florianópolis que passa despercebida.




