Quando você pensa em imigração japonesa no Brasil, a data que vem à cabeça é 1908, o navio Kasato Maru chegando ao porto de Santos com as primeiras famílias que viriam trabalhar no café. É um marco justo e bem documentado. Mas ele não conta a primeira vez que um japonês pisou em chão brasileiro. Essa primeira vez aconteceu aqui, na Ilha, e cinco anos antes do século XX começar a ser imaginado: em 20 de dezembro de 1803.
O que aconteceu no Forte Santana
Naquele fim de ano, um navio russo em viagem de circum-navegação precisou parar em Desterro, o nome que Florianópolis carregava então, para reparos. A bordo iam quatro sobreviventes japoneses do naufrágio do Wakamiya Maru, recolhidos pela embarcação em algum ponto da longa rota. Foi no Forte Santana, no centro da cidade, que eles desembarcaram e passaram cerca de 44 dias em terra firme.
Não eram colonos, não vinham fundar nada. Eram náufragos, homens que o mar tinha jogado longe de casa e que a Ilha recebeu enquanto o navio se recompunha. Nesses pouco mais de quarenta dias, eles observaram o que tinham diante dos olhos: a vida da cidade, o modo como se plantava, o ritmo de um lugar que devia lhes parecer o avesso do mundo de onde vinham. Registraram essas impressões, e é por isso que sabemos que estiveram aqui.
Some as contas e o detalhe fica claro. Foram 105 anos entre esses quatro homens no Forte Santana e o Kasato Maru em Santos. Ou seja: o primeiro solo brasileiro que um japonês pisou não foi São Paulo. Foi a Ilha.
Por que a Ilha esqueceu esse episódio
Um episódio se apaga por bons motivos. Este teve todos eles. Foram só quatro pessoas, ficaram poucas semanas e seguiram viagem. Não deixaram descendência, comunidade nem bairro com o nome deles. Não havia jornal para narrar o desembarque, e a memória de Desterro se ocupava de coisas maiores, ou que pareciam maiores na hora.
A história da imigração japonesa, quando foi contada décadas depois, precisava de um começo redondo, e Santos em 1908 é um começo redondo: famílias, contratos, um projeto. Quatro náufragos de passagem não cabem nessa moldura. Então o episódio ficou onde episódios pequenos costumam ficar, nas notas de rodapé e nos especiais de jornal que quase ninguém lê duas vezes.
Por que ele importa hoje
Importa porque muda quem foi o primeiro. E o primeiro, aqui, não foi um projeto de colonização. Foi um gesto de acolhimento. A Ilha recebeu quatro estrangeiros em dificuldade, deu-lhes chão por 44 dias e os devolveu ao mar. Essa é uma origem menos épica e mais humana do que a de Santos, e talvez por isso mais parecida com o que Florianópolis sempre foi: um ponto de parada, um lugar onde gente de fora encosta, olha em volta e leva embora uma impressão.
Vale a correção histórica pela correção em si. O primeiro japonês do Brasil não desembarcou em 1908. Desembarcou em 1803, no centro de uma cidade que hoje você atravessa sem saber que pisa sobre esse detalhe.
Um fecho da casa
Conhecer a Ilha por dentro é isso: descobrir que o lugar comum de um forte no centro guarda o primeiro encontro entre dois países. Na Regente, a gente trata a cidade como quem a lê camada por camada, porque quem entende o chão que pisa escolhe melhor onde quer ficar. Memória da Ilha é a nossa forma de devolver a você essas camadas, uma de cada vez.
Leia também: a história de Florianópolis




