Muita gente chega a Florianópolis pelas praias e vai embora sem saber que a Ilha tem uma mitologia própria, e que boa parte dela sobreviveu porque um professor de desenho resolveu anotar, durante quatro décadas, os causos que ouvia dos pescadores.
Esse professor foi Franklin Joaquim Cascaes (1908–1983). Folclorista, escultor e gravador, ele transformou a tradição oral açoriana da Ilha de Santa Catarina em acervo documentado. As bruxas que hoje viram tema de tour, de nome de bar e de peça de artesanato têm origem, em grande medida, no trabalho de campo dele.
Este guia explica quem foi Cascaes, o que ele registrou, onde ver o legado hoje e por que “bruxa”, no sentido que ele documentou, é folclore, não afirmação de sobrenatural. Se você quer entender a Ilha por dentro, e não só pela orla, é um bom ponto de partida.
Quem foi Franklin Cascaes
Franklin Cascaes nasceu em 1908, em Itaguaçu, então distrito de pescadores do município de São José, hoje bairro da porção continental de Florianópolis. Formou-se e atuou como professor de desenho, mas seu trabalho extrapolou a sala de aula.
A partir dos anos 1940, ele começou a percorrer sistematicamente as comunidades da Ilha (freguesias, praias, engenhos de farinha), coletando lendas, crenças, rezas e histórias que passavam de boca em boca entre os descendentes dos imigrantes açorianos.
Vale uma distinção que importa: a chegada dos açorianos à Ilha, no século XVIII, foi um processo de imigração e povoamento dirigido pela Coroa portuguesa. Cascaes documentou a cultura que essa população construiu ao longo de gerações: a linguagem, os medos, a religiosidade popular e o imaginário do “manezinho da Ilha”.
O trabalho de campo: rodando a Ilha atrás dos causos
O método de Cascaes era o de um etnógrafo, embora ele não usasse esse rótulo. Ia até as comunidades, conversava com pescadores e rendeiras, ouvia os “causos bruxólicos” e os registrava.
Um detalhe torna esse acervo singular: Cascaes anotava as falas em grafia fonética, tentando reproduzir no papel o jeito de falar do interior da Ilha: o sotaque, as contrações, o vocabulário do manezinho. O registro guarda, assim, não só a história, mas a voz de quem a contava.
Desse material saíram desenhos, esculturas e o livro “O Fantástico na Ilha de Santa Catarina”, publicado em 1979 com narrativas coletadas entre 1946 e 1976. É a fonte a que boa parte das versões modernas dessas lendas ainda remete.
As bruxas da Ilha: folclore, não feitiço
A “bruxa” é a figura central do universo que Cascaes documentou. Nos causos que ele recolheu, elas assombram a vida cotidiana: emaranham a crina dos cavalos, azedam o leite, atormentam crianças, provocam tempestades.
O que Cascaes documentou é um fato etnográfico: a lenda existe, foi contada, foi acreditada por gerações. Isso não equivale a afirmar que bruxas ou o sobrenatural sejam reais. O valor do acervo está em preservar a crença de um povo, não em comprová-la.
Essas histórias cumpriam função social. Num tempo sem explicação científica acessível para doença, morte súbita de animais ou desgraça sem causa aparente, a “bruxaria” dava nome ao inexplicável e organizava o medo coletivo.
O baile das bruxas de Itaguaçu e as pedras de Coqueiros
Uma das lendas mais conhecidas registradas por Cascaes é a do Baile das Bruxas de Itaguaçu, na costeira do continente.
Segundo a narrativa, as bruxas se reuniam para dançar à beira-mar. Surpreendidas pela luz do amanhecer, que no folclore lhes é fatal, teriam sido petrificadas. As formações rochosas da orla de Coqueiros e Itaguaçu seriam, na leitura popular, essas bruxas transformadas em pedra.
É uma explicação mítica para a paisagem: a lenda dá sentido às rochas que qualquer morador vê todo dia. Do ponto de vista geológico, são formações comuns da costa. Do ponto de vista cultural, são um dos casos mais citados do imaginário que Cascaes ajudou a fixar.
O acervo: cerca de 3.000 peças no MArquE/UFSC
O trabalho de Cascaes não se perdeu: ele doou o acervo à Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) ainda em vida, em 1981. Reunido sob o nome de Coleção Professora Elizabeth Pavan Cascaes (homenagem à esposa e parceira de trabalho), está hoje sob a guarda do MArquE, o Museu de Arqueologia e Etnologia da UFSC.
São cerca de 3.000 peças, entre esculturas, desenhos, gravuras, objetos e os registros manuscritos das lendas. É uma das coleções etnográficas mais importantes de Santa Catarina e a principal fonte primária sobre o imaginário popular da Ilha.
Para quem mora ou pretende morar na região, o museu funciona como uma porta de entrada para entender a cultura local a partir da documentação, e não do folder turístico. Confirme horários e condições de visitação diretamente com o MArquE antes de ir.
Uma leitura contemporânea: bruxas, benzedeiras e curandeiras
Estudos mais recentes propõem uma releitura da figura da “bruxa” no folclore da Ilha. A leitura contemporânea observa que muitas das mulheres associadas à bruxaria eram, na prática, benzedeiras e curandeiras: figuras que detinham conhecimento de ervas, partos e rezas de cura numa sociedade sem acesso a médicos.
Nessa chave, o rótulo de “bruxa” aparece menos como descrição de um poder mágico e mais como um mecanismo social de suspeita sobre mulheres que ocupavam um lugar de saber e autonomia fora dos papéis esperados.
Essa releitura não contradiz Cascaes. Ela dialoga com o material que ele preservou. É justamente porque o acervo existe, com as falas registradas, que pesquisadores podem hoje reinterpretar quem eram essas mulheres e o que a acusação de bruxaria significava.
Onde o legado de Cascaes aparece hoje
O imaginário que Cascaes documentou saiu dos manuscritos e entrou na vida da cidade. Você o encontra no artesanato das bruxinhas vendidas no comércio local, em roteiros culturais que passam por Itaguaçu e Coqueiros, e na própria identidade que Florianópolis construiu em torno da figura da bruxa.
Reconhecer a origem, o trabalho de campo de um professor e não uma invenção de marketing turístico, muda a forma como você lê a Ilha. A cultura açoriana sustenta uma camada viva sob a cidade contemporânea, não um cenário de fundo para o turista.
Perguntas frequentes
Quem foi Franklin Cascaes?
Franklin Joaquim Cascaes (1908–1983) foi um professor de desenho, folclorista, escultor e gravador nascido em Itaguaçu, então distrito de pescadores do município de São José, hoje parte de Florianópolis. É reconhecido como o principal documentador da cultura açoriana e do folclore das bruxas da Ilha de Santa Catarina, que registrou em trabalho de campo a partir dos anos 1940.
As bruxas de Florianópolis existiram de verdade?
A lenda das bruxas é um fato folclórico documentado: as histórias foram contadas e acreditadas por gerações de moradores da Ilha. Isso não significa afirmar que bruxas ou o sobrenatural sejam reais. O valor do trabalho de Cascaes está em preservar uma crença cultural, não em comprová-la. Leituras contemporâneas associam muitas das “bruxas” a benzedeiras e curandeiras da época.
Onde está o acervo de Franklin Cascaes?
O acervo (cerca de 3.000 peças reunidas na Coleção Professora Elizabeth Pavan Cascaes) está sob a guarda do MArquE, o Museu de Arqueologia e Etnologia da UFSC, em Florianópolis. Inclui esculturas, desenhos, gravuras e os registros manuscritos das lendas. Confirme horários de visitação diretamente com o museu.
O que é a lenda do Baile das Bruxas de Itaguaçu?
É uma das lendas registradas por Cascaes. Conta que bruxas dançavam à beira-mar e foram petrificadas pela luz do amanhecer. As formações rochosas da orla de Coqueiros e Itaguaçu seriam, na narrativa popular, essas bruxas transformadas em pedra: uma explicação mítica para a paisagem local.
Qual o livro mais importante de Franklin Cascaes?
“O Fantástico na Ilha de Santa Catarina”, publicado em 1979, reúne parte das narrativas que Cascaes coletou em campo entre 1946 e 1976, muitas transcritas na grafia fonética do falar manezinho. É a principal referência publicada sobre o imaginário popular da Ilha e a fonte de boa parte das versões modernas dessas lendas.
Conhecer a Ilha por dentro
Entender Florianópolis vai além de metro quadrado e vista para o mar. A cultura açoriana, o folclore das bruxas e o trabalho de gente como Franklin Cascaes fazem parte do que dá densidade a cada bairro da Ilha, de Itaguaçu a Coqueiros, do Centro às freguesias.
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