Florianópolis — História

O que é o boi de mamão? O auto folclórico que virou patrimônio de Florianópolis

Numa tarde de festa em Florianópolis, um boi de pano dança, cai morto no meio da roda e volta à vida enquanto a plateia canta. Ao lado dele passam uma boneca de braços compridos, uma cabra que corneia quem chega perto e um bicho que finge engolir as crianças. É o boi de mamão, um […]

O que é o boi de mamão? O auto folclórico que virou patrimônio de Florianópolis

Numa tarde de festa em Florianópolis, um boi de pano dança, cai morto no meio da roda e volta à vida enquanto a plateia canta. Ao lado dele passam uma boneca de braços compridos, uma cabra que corneia quem chega perto e um bicho que finge engolir as crianças. É o boi de mamão, um dos folguedos mais vivos da tradição luso-açoriana da Ilha.

O boi de mamão é um pequeno teatro de rua: junta música, encenação e improviso num mesmo enredo. Nasceu no litoral catarinense no século XIX e, com o tempo, se tornou parte da identidade da cidade. Em 2019, foi reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial de Florianópolis.

Este guia explica o que é o boi de mamão, de onde veio, quem são seus personagens e como você pode assistir a uma apresentação na Ilha. É também uma porta de entrada para entender a cultura que se formou nas antigas freguesias de Florianópolis.

O que é o boi de mamão

O boi de mamão é um auto folclórico de matriz luso-açoriana. “Auto” aqui tem o sentido antigo de peça encenada: há um enredo, personagens fixos e uma sequência de cenas que se repetem a cada apresentação.

O fio da história é simples. Um boi de estimação morre no meio da brincadeira. O vaqueiro se desespera e chama ajuda para trazê-lo de volta. Entram em cena um médico e uma benzedeira, e o boi ressuscita, para alegria de todos. Em torno desse núcleo circulam vários outros bichos e figuras.

O que sustenta a encenação é a música. Cada entrada de personagem tem sua toada, cantada pelo grupo ao som de instrumentos como o pandeiro e a viola. A plateia acompanha, responde e muitas vezes participa. É brincadeira e espetáculo ao mesmo tempo.

Os registros mais antigos do folguedo em Santa Catarina remontam a cerca de 1840, no Vale do Itajaí e na Grande Florianópolis. A manifestação chegou com os colonos açorianos que povoaram o litoral catarinense a partir do século XVIII e foi ganhando feições próprias em cada comunidade.

De “boi de pano” a “boi de mamão”: a origem do nome

O boi que dá nome à brincadeira é uma armação leve, coberta de pano, que um brincante veste e movimenta por dentro. Por causa disso, o folguedo já foi chamado de boi de pano, e antes disso era associado ao bumba meu boi do Nordeste.

O nome atual surgiu por volta dos anos 1930. A versão mais repetida conta que, na pressa de montar a cabeça do boi para uma apresentação, um grupo usou um mamão verde no lugar da estrutura tradicional. A improvisação pegou, e o “boi de mamão” ficou.

Vale registrar que essa é a origem contada pela própria tradição. Como acontece com boa parte do folclore, não há um documento único que ateste a cena. O que existe é a memória transmitida pelos grupos, e ela faz parte do próprio patrimônio.

O boi de mamão também tem parentesco com folguedos ibéricos. Pesquisadores associam algumas de suas figuras a manifestações do norte de Portugal e da Galícia, onde desfilam monstros de festa parecidos. A brincadeira que se dança em Florianópolis, porém, é uma criação já adaptada ao litoral catarinense.

Os personagens do boi de mamão

O elenco varia de grupo para grupo, mas há figuras que quase nunca faltam. Cada uma tem entrada, toada e comportamento próprios.

  • O boi. Personagem central. Morre no auge da festa e renasce ao fim, num ciclo que se repete a cada apresentação.
  • Mateus, o vaqueiro. Dono do boi. É ele quem entra em desespero com a morte do animal e sai atrás de ajuda.
  • O médico e a benzedeira. Chamados para curar o boi. Representam, lado a lado, a medicina e a cura popular, sem que uma anule a outra.
  • A cabra e o cavalinho. Bichos que entram na roda, correm atrás do público e dão o tom cômico da brincadeira.
  • O urubu. Aparece rondando o boi caído, como quem espera o desfecho.
  • A Maricota. Boneca gigante, de braços longos e soltos, que roda e balança os braços por cima da plateia.
  • A Bernúncia. Um bicho de boca enorme que finge engolir as crianças. A lenda diz que ela devora os pequenos desobedientes, que passam a viver dentro dela.

A Bernúncia merece uma nota à parte. Ela é uma estilização de dragão e uma criação catarinense, sem equivalente exato em outros folguedos brasileiros. O susto que provoca nas crianças é encenado e combinado entre os brincantes: assusta e diverte na mesma cena, e ninguém sai machucado.

Por que o boi de mamão é patrimônio de Florianópolis

Em 2019, no Dia do Folclore, o boi de mamão foi declarado Patrimônio Cultural Imaterial de Florianópolis. O reconhecimento protege uma prática viva: o direito de a tradição continuar sendo brincada, ensinada e apresentada.

Na data da declaração, onze grupos se reuniram na Praça XV de Novembro, no Centro, para uma apresentação conjunta. O número dá uma ideia do fôlego da manifestação na cidade.

Florianópolis concentra hoje a maior quantidade de grupos de boi de mamão do litoral catarinense. Eles costumam levar o nome da comunidade de origem, como os grupos do Pantanal, da Vargem Grande e do Sambaqui, entre vários outros espalhados pelas antigas freguesias da Ilha.

Esse enraizamento nos bairros explica por que o boi de mamão sobrevive. Ele não depende de um grande palco. Nasce e se mantém nas comunidades, passado de brincante para brincante, de geração para geração.

Onde assistir ao boi de mamão em Florianópolis

Não há uma temporada fixa. As apresentações se concentram em datas de forte identidade açoriana e em celebrações comunitárias ao longo do ano.

Os períodos mais prováveis para encontrar o boi de mamão são as festas do Divino Espírito Santo, as festas de padroeiros das freguesias, o Dia do Folclore, em agosto, e as programações de fim de ano em bairros do interior da Ilha. Escolas e centros culturais também costumam receber grupos.

Como as datas mudam a cada ano, a recomendação é acompanhar a programação cultural da cidade antes de se planejar. Reunimos as principais fontes no nosso guia da agenda cultural de Florianópolis e nos destaques de o que fazer em Florianópolis nesta semana.

Perguntas frequentes

O que é o boi de mamão?

É um auto folclórico luso-açoriano do litoral de Santa Catarina que reúne teatro, dança e música. O enredo gira em torno de um boi que morre e ressuscita, cercado por personagens como o vaqueiro Mateus, a Maricota e a Bernúncia. Em Florianópolis, é Patrimônio Cultural Imaterial desde 2019.

Por que se chama boi de mamão?

O nome surgiu por volta dos anos 1930. Segundo a tradição, um grupo usou um mamão verde para fazer a cabeça do boi às pressas, e o apelido pegou. Antes disso, o folguedo era conhecido como boi de pano.

Quem é a Bernúncia no boi de mamão?

A Bernúncia é um dos personagens mais marcantes da brincadeira: um bicho de boca enorme que finge engolir as crianças. Ela é uma estilização de dragão e uma criação catarinense, sem equivalente idêntico em outros folguedos do Brasil. O susto é encenado, combinado entre os brincantes.

Qual a origem do boi de mamão em Santa Catarina?

Os registros mais antigos remontam a cerca de 1840, no Vale do Itajaí e na Grande Florianópolis. A manifestação chegou com a colonização açoriana do litoral catarinense e foi adaptada em cada comunidade, ganhando personagens e toadas próprios.

Onde posso ver uma apresentação de boi de mamão em Florianópolis?

As apresentações se concentram em festas do Divino, festas de padroeiro das freguesias, no Dia do Folclore, em agosto, e em celebrações comunitárias de fim de ano. Como não há calendário fixo, o melhor é consultar a agenda cultural da cidade antes de programar a ida.

Conhecer a Ilha por dentro

O boi de mamão é um bom lembrete de que Florianópolis não se resume às praias. Debaixo do roteiro turístico existe uma Ilha de freguesias antigas, festas de comunidade e uma cultura açoriana que continua viva nos bairros.

Na Regente, essa leitura do território faz parte do trabalho. Entender onde uma cidade guarda sua história ajuda a entender também como ela se organiza e recebe quem chega. Se você quer conhecer Florianópolis por dentro, com curadoria e sem pressa, fale com a nossa equipe.

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