Se você caminha hoje pela Praça Fernando Machado, no centro de Florianópolis, pode passar por cima de um prédio inteiro sem perceber. Está ali, sob os seus pés: a planta de um trapiche desenhada no piso, com pórtico e colunas estilizadas. Foi a forma que a prefeitura encontrou, em 2001, de lembrar o que havia naquele ponto. O Bar Miramar.
O cais onde a cidade chegava
O Miramar foi inaugurado em 28 de setembro de 1928, em frente ao antigo Largo da Matriz, no coração da cidade. Não era só um bar. Era o trapiche de onde a Florianópolis daquela época embarcava e desembarcava. Antes das pontes darem conta de tudo, boa parte de quem chegava ou saía da Ilha passava por ali, entre malas, despedidas e a espera do próximo barco.
Com o tempo, o cais virou ponto de encontro. Quem viveu a cidade naquele período conta que o Miramar reunia gente que ia ver o mar, tomar alguma coisa e ficar olhando o movimento da baía. Um lugar que juntava a função prática do porto com o hábito, muito de Floripa, de sentar de frente para a água e deixar o tempo passar.
O progresso que passou por cima
Em 24 de outubro de 1974, o Miramar foi demolido. A cidade estava no meio do aterro da Baía Sul, uma obra que redesenhou toda a orla central e mudou a relação de Florianópolis com o próprio mar. O cais, que existia justamente porque a água chegava até ali, ficou sem sentido no momento em que a água foi empurrada para longe.
As justificativas oficiais variaram. Falou-se em problema estrutural. Falou-se também em um eixo viário que passaria por ali, um traçado que, no fim, nunca passou. E há a frase que ficou: o governador Colombo Salles chegou a dizer que o Miramar era frequentado “por gente sem muito conceito”. A demolição de um marco da cidade justificada, em parte, pela companhia que ele atraía.
Por que o Miramar foi esquecido
O Miramar não desapareceu por acaso. Ele foi apagado por uma ideia de futuro. O mesmo aterro que engoliu o trapiche é o que abriu espaço para a Avenida Beira-Mar Norte, um dos cartões-postais da cidade hoje. A Ilha ganhou avenida e perdeu o cais. Ganhou uma paisagem nova e perdeu o ponto exato onde chegava e partia.
Quando uma cidade cresce rápido, o que sobra costuma ser o que foi construído por último. O Miramar era de outra escala, outra velocidade. Não coube na cidade que se queria ter, e por décadas quase ninguém falou dele. Virou assunto de quem tinha idade para lembrar.
Por que isso importa hoje
O memorial de 2001 tem algo comovente e desconfortável ao mesmo tempo. A cidade reconheceu o que perdeu, mas o reconhecimento veio como contorno no chão, uma planta sem paredes, um cais sem água. É a distância entre ter um lugar e ter a lembrança de um lugar.
Vale a pena conhecer essa história antes de andar pelo centro. Ela muda o jeito de olhar a orla. Cada aterro, cada avenida larga de frente para o mar, guarda embaixo uma decisão sobre o que a cidade quis manter e o que preferiu deixar ir.
Na Regente, a gente acredita que entender Florianópolis por dentro faz parte de morar bem aqui. Saber o que existiu no lugar onde você pisa é uma forma de habitar a Ilha com mais atenção, e de reconhecer, na paisagem de hoje, as escolhas de ontem.
Memória da Ilha, uma série da Regente sobre a Florianópolis que ficou embaixo da que você vê.
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