Urbanismo e Planejamento

O que o Plano Gehl prevê para a Av. Rio Branco e a Beira-Mar Norte de Florianópolis

O masterplan Gehl de Florianópolis classifica a Av. Rio Branco como corredor prioritário e propõe reconexão do Centro com o mar pela Beira-Mar Norte. Veja o que está previsto e o que isso significa.

O que o Plano Gehl prevê para a Av. Rio Branco e a Beira-Mar Norte de Florianópolis

Se você está avaliando um imóvel no Centro de Florianópolis — especialmente no eixo da Av. Rio Branco ou próximo à orla — existe um documento que precisa estar na sua análise.

Em fevereiro de 2026, o escritório Gehl Architects (Copenhague) entregou o masterplan de reurbanização do Centro de Florianópolis. O documento de 136 páginas menciona a Av. Rio Branco em contextos diretos e trata a Beira-Mar Norte como um dos três projetos piloto de maior prioridade.

Este guia detalha o que está previsto para cada uma dessas áreas.


1. A Av. Rio Branco no Plano Gehl

1.1 Classificação viária: Corredor Tipo M

O masterplan Gehl classifica as vias do Centro em cinco tipologias (XL, L, M, S, Cal.) com propostas distintas para cada. A Av. Rio Branco e a Av. Gama D’Eça são classificadas como Tipo M — via coletora secundária.

O que está previsto para corredores Tipo M:

IntervençãoDetalhe
Ciclovia segregada unidirecionalEm ambos os lados da via, separada fisicamente do tráfego de carros
Faixas de ônibus prioritáriasPreferência para transporte coletivo no corredor
Calçadas mínimas de 2,5 mAmpliação da área de caminhada com arborização
Redução de velocidadeIntegrada ao redesenho da via — não apenas sinalização

A ciclovia na Av. Gama D’Eça é citada explicitamente como projeto-piloto de boas práticas — a via onde a proposta pode ser implementada primeiro como referência para os demais corredores Tipo M.

1.2 Fachadas ativas no eixo Esteves Júnior → Rio Branco

O documento identifica o eixo Rua Esteves Júnior → Av. Rio Branco como prioritário para a estratégia de fachadas ativas: comércio, cafés, restaurantes e serviços no térreo dos edifícios — em vez de garagens, muros e fachadas cegas.

Fachada ativa é um conceito de urbanismo que mede se o térreo de um edifício contribui para a vitalidade da rua — se há algo acontecendo do lado de fora que convida pedestres a entrar, parar, usar o espaço. O oposto — garagem ou muro no térreo — cria uma “fachada morta” que esvazia a calçada e reduz a segurança e a atratividade de todo o bloco.

O masterplan propõe transformar o eixo Rio Branco em um corredor com comércio e serviços ativos no nível da rua, integrado à ciclovia e às calçadas alargadas.

1.3 Drenagem urbana

A Av. Gama D’Eça / Av. Rio Branco é citada como área de atenção prioritária para soluções de drenagem urbana — jardins de chuva e canteiros pluviais integrados às intervenções de calçada e ciclovia.

1.4 O epicentro das transformações de mobilidade ativa

O documento define a faixa entre a Rua Esteves Júnior, Rua Bocaiúva, Av. Rio Branco e a orla como o epicentro das transformações de mobilidade ativa no masterplan. Essa faixa concentra:

  • O corredor Tipo M (Av. Rio Branco)
  • A Zona Escolar — projeto piloto na R. Esteves Júnior Norte
  • O acesso às travessias da Beira-Mar Norte
  • O eixo de fachadas ativas prioritário

Imóvel dentro dessa faixa tem uma relação geográfica direta com as intervenções planejadas.


2. A Beira-Mar Norte no Plano Gehl

2.1 O problema atual: uma barreira de 11 faixas

A Av. Jornalista Rubens de Arruda Ramos — a Beira-Mar Norte — é hoje uma das maiores barreiras entre o Centro de Florianópolis e o mar. O documento documenta os dados:

  • 8 a 11 faixas de rodagem
  • Velocidade de 80 km/h
  • Nível de ruído de 76 dB — acima do limite de 65 dB da Organização Mundial da Saúde
  • Tempo semafórico insuficiente para que pedestres atravessem com conforto

O resultado é que o Centro de Florianópolis — uma cidade ilha com vocação de relação com o mar — está efetivamente separado da orla por uma via expressa urbana.

2.2 O projeto piloto: Travessias Seguras na Beira-Mar Norte

O terceiro projeto piloto do masterplan propõe reconectar o Centro ao mar através de travessias de pedestres qualificadas. O documento analisou três cenários:

CenárioAvaliação
Faixa elevada e alargadaRecomendado — mais acessível, replicável, custo viável; exige redução de velocidade na via
Rebaixamento da via (túnel)Impacto transformador mas custo extremamente alto (referências: Rose Kennedy Greenway/Boston US$24bi, Madrid Río €4bi)
Passarela elevadaNão recomendado — cria barreiras de acessibilidade e perde a vitalidade no nível da rua

A recomendação do escritório é pela solução mais pragmática: faixas de pedestres fisicamente qualificadas — elevadas, alargadas, bem iluminadas, com tempo semafórico adequado — combinadas com redução de velocidade da via.

2.3 O parque linear da orla

Além das travessias, o masterplan propõe um parque linear na Beira-Mar Norte, do Clube de Remo até o CIC, com:

  • Arborização com espécies nativas (Ipê roxo, Olandi, Aroeira)
  • Ciclovia integrada
  • Áreas de permanência e descanso
  • Jardins de chuva e soluções baseadas em natureza

O parque linear transforma a orla de um eixo de passagem rápida em um destino — o que afeta diretamente o valor dos imóveis no raio de influência, exatamente como ocorreu em casos internacionais comparáveis.

2.4 Referências internacionais de reconexão cidade-água

O masterplan cita três casos de cidades que transformaram barreiras de infraestrutura em espaços públicos:

  • Seoul — Cheonggyecheon: córrego coberto por autoestrada elevada foi recuperado em 27 meses; 170.000 veículos redistribuídos; área transformada em parque linear urbano de referência
  • Madrid Río: 6 km de autoestrada enterrada; parque linear criado na superfície; valorização de todos os bairros adjacentes
  • Rio de Janeiro — Orla Conde: demolição do Elevado da Perimetral; parque linear de 3,5 km; recuperação da relação do Centro com o porto

Em Florianópolis, a proposta não é tão radical — não envolve enterrar ou demolir a Beira-Mar. Mas o princípio é o mesmo: qualificar a relação entre a cidade e a água aumenta o valor dos imóveis no entorno.


3. O que essas intervenções significam para o mercado imobiliário local

3.1 O corredor de maior impacto

As intervenções mais concentradas estão no raio de 5 a 10 minutos a pé de imóveis localizados entre a Av. Rio Branco e a orla. Esse é o corredor onde:

  • A qualidade da calçada vai melhorar (Tipo M)
  • A ciclovia vai existir (Av. Rio Branco / Gama D’Eça)
  • O acesso ao mar vai ficar mais seguro e agradável (travessias)
  • O comércio de bairro no térreo tende a aumentar (fachadas ativas)

Para imóveis nesse corredor, cada uma dessas melhorias representa um aumento real na walkability e na completude do bairro — os dois fatores que mais consistentemente se correlacionam com preço de imóvel em mercados urbanos.

3.2 O que os precedentes sugerem

Em Copenhague, onde o escritório Gehl implementou intervenções similares (ciclovias segregadas, calçadas alargadas, qualificação de espaço público em corredores específicos), os imóveis nas áreas de intervenção valorizaram 20 a 40% acima do restante da cidade. O diferencial é permanente — a qualidade do espaço público não deprecia.

Em Brisbane, Auckland, Porto, Sevilha e outras cidades que investiram na reconexão do centro com a orla, o padrão é parecido: a faixa de imóveis entre o centro histórico e a água se valoriza acima da média depois que a travessia ou a orla é qualificada.

3.3 O estado atual: projeto entregue, obras ainda não iniciadas

Em maio de 2026, o masterplan existe mas as obras ainda não começaram. Não existe data oficial de início. A implementação depende de orçamento público e vontade política ao longo de múltiplas administrações.

Isso significa que quem compra hoje no corredor Rio Branco – Beira-Mar está comprando antes das obras começarem — o momento que, nos casos internacionais documentados, gerou o maior retorno. E também com o maior risco: se o projeto não for executado, o investimento precisa ser sustentado pelos fundamentos atuais do bairro.


FAQ

O que o Plano Gehl prevê para a Av. Rio Branco de Florianópolis?
O masterplan Gehl (fevereiro de 2026) classifica a Av. Rio Branco como corredor Tipo M — via coletora secundária. As propostas incluem ciclovia segregada unidirecional, faixas de ônibus prioritárias, calçadas com largura mínima de 2,5 m e redesenho para redução de velocidade. O eixo R. Esteves Júnior → Av. Rio Branco também é identificado como prioritário para fachadas ativas — comércio e serviços no térreo dos edifícios.

O que o Plano Gehl propõe para a Beira-Mar Norte de Florianópolis?
O masterplan propõe três intervenções na Beira-Mar Norte: (1) travessias de pedestres qualificadas — faixas elevadas e alargadas com tempo semafórico adequado — para reconectar o Centro ao mar; (2) parque linear na orla, do Clube de Remo ao CIC, com arborização nativa, ciclovia e áreas de permanência; (3) redução de velocidade da via de 80 km/h para 60 km/h. O rebaixamento da via (túnel) foi analisado mas não recomendado por custo.

Qual é a diferença entre ciclovia segregada e ciclofaixa?
Ciclovia segregada é separada fisicamente do tráfego de veículos — por canteiro, blocos ou diferença de nível. Ciclofaixa é uma pintura no asfalto sem separação física. O masterplan Gehl propõe especificamente ciclovias segregadas para os corredores Tipo M (incluindo Av. Rio Branco e Gama D’Eça) — mais seguras e que geram maior adesão de uso, especialmente por mulheres e crianças (o estudo PSPL de Florianópolis documentou que apenas 4,4% dos ciclistas usam bicicleta, e a infra inadequada é apontada como causa).

A Av. Rio Branco é um corredor prioritário no Plano Gehl?
Sim. O documento identifica a faixa entre a Rua Esteves Júnior, Rua Bocaiúva, Av. Rio Branco e a orla como “epicentro das transformações de mobilidade ativa” do masterplan. A Av. Rio Branco aparece em quatro contextos no documento: classificação Tipo M (ciclovia + calçadas), eixo de fachadas ativas, área de atenção para drenagem urbana e corredor de walkability expandida.

Quando começam as obras do Plano Gehl em Florianópolis?
O masterplan foi entregue em fevereiro de 2026 e é um documento de diretrizes e projetos piloto — não um projeto executivo com data de início de obras definida. A implementação depende de etapas posteriores: detalhamento dos projetos executivos, aprovações, orçamento público e licitações. Não existe data oficial de início de obras em maio de 2026. O documento tem horizonte de implementação de 10 a 15 anos, com os três projetos piloto como prioridade de curto e médio prazo.


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