No fim de tarde, num restaurante do sul da Ilha, o polvo grelhado chega à mesa como se sempre tivesse estado ali. Parece um prato daqui de sempre. Não é. Ele tem a assinatura de um homem que veio de longe, mudou a vida de um vilarejo de pescadores e depois foi ficando esquecido.
O nome dele era Noboru Oda. Poucos o guardam hoje. Mas houve um tempo em que a Armação do Pântano do Sul não esquecia Seu Oda de jeito nenhum.
Esta é a história dele, e do sul da Ilha que já não existe mais.
A Armação antes de Seu Oda
Antes dos anos 1950, a Armação do Pântano do Sul vivia como tantos outros povoados açorianos da Ilha: do mar, com pouco. A pesca era de arrasto, técnica que os descendentes dos açorianos praticavam havia gerações. Rendia o suficiente para comer, raramente muito mais.
As casas eram de estuque, com telhado de sapê. A fartura vinha em safras boas e faltava nas ruins. Era uma vida modesta, de gente que conhecia o mar de perto e esperava dele o que ele quisesse dar.
De Kagoshima à Ilha
Foi nesse cenário que Noboru Oda chegou, vindo de Kagoshima, no sul do Japão. A imigração japonesa em Santa Catarina nunca formou grandes colônias na Ilha, ao contrário do que aconteceu no interior do estado, na região da serra, a partir dos anos 1960. Na Ilha, a chegada foi outra coisa: discreta, individual, uma família aqui, um pescador ali.
Oda foi um desses. Não veio com uma leva, não fundou uma comunidade. Veio com o que sabia, e o que sabia iria transformar a Armação.
A rede que mudou tudo
O que Oda trouxe de Kagoshima foi a técnica da rede de cerco. Em vez de arrastar a rede pelo fundo, cercava-se o cardume.
Contam que na primeira vez que lançaram a rede na Armação, a pesca rendeu dezenas de vezes mais do que o arrasto de sempre. Não era sorte. Era método, trazido de um lugar onde o mar se lia de outro jeito.
Para uma vila que vivia no limite entre a fartura e a falta, o efeito foi imediato.
Uma vila com outra vida
Com a rede de cerco, a pesca deixou de ser aposta e virou renda. E renda mudou o lugar. Boa parte das casas de estuque deu lugar a construções mais firmes, mais confortáveis.
Oda também olhou para o que os pescadores jogavam fora. O polvo e a lula, tidos como sem valor, voltavam ao mar depois de cada pesca. Ele mostrou que ali havia comida, e comida boa. Ensinou pratos, introduziu ingredientes que ninguém usava por ali, como o broto de bambu.
O sul da Ilha comeu diferente a partir dele, sem saber que estava aprendendo com um homem de Kagoshima.
A herança na mesa da Ilha
Hoje Florianópolis é Cidade Criativa da Gastronomia pela Unesco, um título que se apoia na sua identidade de mar: a ostra, a tainha, o peixe fresco.
Parte dessa mesa, no entanto, tem um sotaque que quase ninguém reconhece. Aquele polvo grelhado do começo da história, a lula que hoje é presença certa nos cardápios do sul da Ilha, o gesto de aproveitar o que antes se descartava: é herança de Seu Oda. A Ilha o esqueceu, mas continua comendo o que ele ensinou.
O dia em que a Armação parou
Noboru Oda morreu em 1979. E aí se vê o tamanho do que ele significou para aquela gente.
Contam que, no dia do enterro, a Armação parou. As crianças da escola foram todas se despedir. Não era o funeral de um estrangeiro que passou pela vila. Era o de alguém que a vila reconhecia como seu.
Talvez seja essa a melhor medida de uma vida: não o nome que fica nos livros, mas o silêncio de um vilarejo inteiro no dia da despedida.
Perguntas frequentes
Quem foi Noboru Oda?
Noboru Oda foi um imigrante japonês, natural de Kagoshima, que se estabeleceu na Armação do Pântano do Sul, no sul da Ilha de Santa Catarina, nos anos 1950. Ele introduziu a técnica da rede de cerco na pesca local e transformou a economia e a alimentação da região.
O que é a rede de cerco?
É uma técnica de pesca em que a rede cerca o cardume, em vez de ser arrastada pelo fundo do mar. Trazida por Oda, ela multiplicou a captura da Armação em relação à pesca de arrasto que se praticava antes.
Quando os japoneses chegaram a Santa Catarina?
A imigração japonesa ao Brasil começou em 1908, pelo porto de Santos. Em Santa Catarina, as colônias agrícolas se formaram mais tarde, a partir dos anos 1960, concentradas no interior e na serra. Na Ilha de Santa Catarina, a presença foi individual e mais discreta.
Por que o polvo virou prato no sul da Ilha?
Antes de Oda, pescadores da Armação descartavam o polvo e a lula, considerados sem valor. Ele mostrou que eram alimento e ensinou a prepará-los, incorporando-os à cozinha local.
Onde fica a Armação do Pântano do Sul?
É um bairro e antigo povoado de pescadores no extremo sul da Ilha de Santa Catarina, em Florianópolis, conhecido pela praia, pela tradição pesqueira e pela antiga armação baleeira que dá nome ao lugar.
A Ilha muda depressa. Onde havia rede secando ao sol, hoje há pousada e restaurante. E histórias como a de Seu Oda vão ficando só na memória dos mais velhos, até que alguém as conte de novo.
Conhecer Florianópolis por dentro é isso: saber que cada prato, cada praia e cada nome carrega uma história que não está na placa. É esse olhar que guia a Regente. Se você quer morar na Ilha com quem a conhece de verdade, fale com um consultor, e acompanhe a série Memória da Ilha, sobre a Florianópolis que passa despercebida.
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