Hoje você sobe o Morro da Lagoa de carro em poucos minutos, entre curvas que viraram mirante e cartão-postal. Por gerações, não foi assim. A Lagoa da Conceição ficava, literalmente, do outro lado do morro. E quem quisesse chegar até ela subia a pé, ou no lombo de um animal, por um caminho que hoje quase ninguém lembra.
O Caminho do Córrego Grande ao Canto da Lagoa
Ele tem nome, e está catalogado. O IPUF registrou o “Caminho do Córrego Grande ao Canto da Lagoa” no levantamento Caminhos e Trilhas de Florianópolis (2001). Começava no fim da atual Rua Maestro Aldo Krieger, no Córrego Grande, subia o morro e descia do outro lado, na Estrada Geral do Canto da Lagoa. Eram cerca de 1.800 metros, cruzando o córrego quatro vezes, num trecho que hoje está dentro do Parque Natural Municipal do Maciço da Costeira.
Não era só um atalho. Era rota de fé. O caminho era muito usado nos festejos da Romaria da Santíssima Trindade. O próprio Córrego Grande pertencia à freguesia da Santíssima Trindade “de Trás do Morro”, um nome que já dizia tudo: a Lagoa era o outro lado, o que ficava atrás da montanha.
Quando a Lagoa era o fim do mundo
Antes da estrada asfaltada, chegar à Lagoa vindo do centro era coisa de horas, por barro e trilha sobre o Morro da Lagoa, o tal Morro das Sete Voltas. O isolamento era real. Contam que, até os anos 1940, crianças da Lagoa caminhavam mais de oito quilômetros até a Agronômica para estudar.
As mercadorias subiam e desciam o morro no ritmo do interior da Ilha: no carro de boi e no cavalo de cerão, com balaio dos dois lados, carregando o que a roça dava. Era um mundo rural, de gente que media distância em passos, não em minutos.
O que mudou
A ponte de 1957 ligou o centro da Lagoa à Avenida das Rendeiras. Mas a virada veio na década de 1970, no governo de Colombo Machado Salles, quando a estrada asfaltada subiu o morro e encurtou de vez a distância. Em poucos anos, a Lagoa deixou de ser “trás do morro” e virou destino.
O caminho antigo perdeu a função. Deixou de ser a única forma de atravessar e virou trilha, guardada no parque, palmilhada hoje por quem caminha por lazer, nem sempre sabendo que pisa numa via secular.
Por que isso importa hoje
O mesmo morro que isolava a Lagoa é o que hoje a emoldura. A barreira virou mirante. O obstáculo virou paisagem. É uma inversão que só quem conhece a história percebe: a curva onde você para para fotografar a Lagoa foi, por muito tempo, o que mantinha a Lagoa longe.
O caminho ainda está lá. Quem sobe a trilha do Córrego Grande ao Canto da Lagoa não faz só um passeio. Refaz, a pé, o trajeto que ligava duas comunidades quando a Ilha andava devagar.
Conhecer Florianópolis por dentro é isso: saber que a estrada fácil de hoje cobre um caminho difícil de ontem, e que a paisagem que encanta já foi a fronteira que separava.
Memória da Ilha, uma série da Regente sobre a Florianópolis que passa despercebida.
Fontes: IPUF — Zeferino et al., Caminhos e Trilhas de Florianópolis (2001); deolhonailha.com.br; ND+ (Lagoa da Conceição, da exuberância à ocupação); NSC Total. Não confundir com o Caminho da Costa da Lagoa (tombado em 1986), que é outro trajeto, na margem da lagoa.
Leia também: a história de Florianópolis




