Florianópolis — História

As correntes de aço que sustentam a Ilha

Você já fotografou a Ponte Hercílio Luz. Quase todo mundo que passa por Florianópolis fotografou. A silhueta contra o fim de tarde virou o símbolo mais reproduzido da cidade. Mas há um detalhe naquela estrutura que raramente entra no enquadramento, e é justamente ele que segura a ponte de pé. Olhe de novo, com atenção. […]

As correntes de aço que sustentam a Ilha

Você já fotografou a Ponte Hercílio Luz. Quase todo mundo que passa por Florianópolis fotografou. A silhueta contra o fim de tarde virou o símbolo mais reproduzido da cidade. Mas há um detalhe naquela estrutura que raramente entra no enquadramento, e é justamente ele que segura a ponte de pé.

Olhe de novo, com atenção. O vão central não pende de cabos de aço trançados, como acontece na maioria das pontes pênseis do mundo. Ele pende de longas cadeias de barras de olhal, peças maciças de aço ligadas umas às outras por pinos, como os elos de uma corrente gigante. Aquilo que de longe parece um cabo contínuo é, na verdade, uma sequência de placas de metal encaixadas entre si.

O que são as barras de olhal

Uma barra de olhal (eyebar, no termo técnico) é uma peça reta de aço com uma alça em cada ponta. Unidas por pinos, várias delas formam uma cadeia capaz de suportar tração enorme. A Hercílio Luz foi construída assim, e a solução era tão particular que ganhou nome próprio na engenharia: “Ponte Tipo Florianópolis”.

A ponte foi inaugurada em 13 de maio de 1926. Por décadas, ligou o continente à Ilha antes de qualquer aterro ou das pontes que vieram depois. E, ao longo de todo esse tempo, foram as barras de olhal que carregaram o peso do vão suspenso.

Por que isso foi esquecido

O detalhe se apagou da memória por um motivo simples. A ponte virou paisagem. Quando algo se torna cartão-postal, você para de olhar para dentro dele e passa a enxergar apenas o contorno. A silhueta é o que se fotografa. A engenharia fica invisível.

Some-se a isso o longo período em que a ponte esteve fechada. Ela ficou quase 28 anos interditada e só reabriu em 30 de dezembro de 2019, depois de um restauro demorado. Durante quase três décadas, a Hercílio Luz foi uma imagem bonita e distante, não uma estrutura que se podia examinar de perto.

Por que isso importa hoje

As barras de olhal são peças órfãs de fábrica. Não existe mais a indústria que as produziu, não há reposição de catálogo. Cada uma daquelas placas de aço é insubstituível no sentido literal: recuperá-las exigiu estudo, medição e trabalho artesanal durante o restauro, não uma simples troca.

É por isso que a configuração é rara. A Hercílio Luz é descrita como uma das últimas grandes pontes desse tipo ainda de pé no mundo. Contam os relatos que estruturas semelhantes foram desmontadas em outros países ao longo do século 20. Sobrou esta, tombada pelo município em 1992 e pelo IPHAN em 1998, atravessando o mar em frente ao centro da cidade.

Saber disso muda o modo como você olha a ponte. Aquilo que parecia um ornamento da paisagem é a própria razão de a estrutura existir como ela é. A beleza não está apenas no contorno contra o céu. Está nos elos de aço que quase ninguém repara.

Conhecer a Ilha por dentro

Conhecer Florianópolis por dentro é isso: descobrir que o detalhe esquecido costuma ser o que sustenta o resto. A curadoria da Regente nasce da mesma atenção, o cuidado de olhar além da silhueta e entender o que segura de pé cada lugar da Ilha.

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