A Ilha de Santa Catarina é lembrada pelas praias. Mas boa parte da sua água doce nasce morro acima, dentro da Mata Atlântica que cobre os maciços do interior da ilha. É de lá que descem as cachoeiras de Florianópolis, algumas a quinze minutos de caminhada do asfalto, outras no fim de uma trilha de seis quilômetros.
Elas não estão nos roteiros de cartão-postal, e talvez seja melhor assim. São quedas d’água pequenas, de poço raso e água fria, cercadas de floresta que existe justamente porque protege as nascentes que abastecem a cidade. Conhecê-las é conhecer uma Florianópolis que o verão de praia costuma esconder.
Este guia reúne as principais cachoeiras da ilha, com acesso, dificuldade de trilha e as regras de preservação que fazem esses lugares continuarem existindo. Do Poção, no Córrego Grande, à Solidão, no extremo sul.
Por que Florianópolis tem cachoeiras
A ilha tem relevo acidentado. Entre os bairros do centro-oeste, um cordão de morros forma o Maciço da Costeira, uma unidade de conservação municipal de 1.456 hectares criada por lei em 1995 e readequada ao Sistema Nacional de Unidades de Conservação em 2018.
O ecossistema é de Floresta Ombrófila Densa, o nome técnico de um trecho de Mata Atlântica. O maciço se estende por Costeira do Pirajubaé, Rio Tavares, Lagoa da Conceição, Itacorubi, Córrego Grande e Pantanal.
A área tem função ambiental: protege as nascentes que alimentam as bacias dos rios Itacorubi e Tavares, parte do abastecimento de água da capital. As cachoeiras nascem desse sistema de preservação, não foram criadas para o lazer. Vale ter isso em mente antes de tratar qualquer uma delas como piscina de fim de semana.
Cachoeira do Poção, no Córrego Grande
É a mais acessível de todas, e por isso a mais visitada. O Poção fica no bairro Córrego Grande, a cerca de oito quilômetros do Centro, dentro de uma Área de Preservação Permanente do Parque Municipal do Maciço da Costeira.
A trilha é curta e fácil, entre 500 e 700 metros, de quinze a vinte minutos de caminhada. Não exige preparo físico e é bem sinalizada. No caminho há dois pontos de travessia do rio, então atenção aos pés molhados e às pedras.
A queda tem cerca de sete metros e forma um poço natural de profundidade variável, usado para banho. A água é mais abundante nos meses chuvosos, primavera e verão. O acesso é gratuito, sem controle de entrada nem cobrança de ingresso.
Como chegar ao Poção
De carro, o ponto de partida fica na região da Rua Sebastião Laurentino da Silva, no Córrego Grande, com estacionamento nas ruas do entorno. De ônibus, a linha 164 (Córrego Grande via Poção) sai do Terminal da Trindade e passa perto do início da trilha.
Um aviso honesto: em fins de semana de verão, o Poção lota. É comum encontrar grupos de churrasco e som alto. Quem procura silêncio deve ir cedo, em dia de semana, ou escolher outra cachoeira desta lista.
Cachoeira da Costa da Lagoa
No braço oeste da Lagoa da Conceição fica a Costa da Lagoa, uma comunidade de origem açoriana sem acesso por carro. Chega-se a pé ou de barco, e o próprio caminho é parte da experiência: a trilha histórica que liga a Lagoa à comunidade é tombada como patrimônio.
O Caminho da Costa da Lagoa começa no Canto dos Araçás, no fim da Rua João Henrique Gonçalves, na Lagoa da Conceição. Da entrada até a cachoeira são cerca de seis quilômetros, distância que varia conforme o ponto de partida. A trilha é considerada leve, quase toda sombreada e bem marcada, viável mesmo em dia de sol forte.
Ao chegar à comunidade, uma caminhada curta de mais alguns minutos leva à queda d’água. O retorno pode ser feito de barco coletivo, um passeio de baixo custo pela lagoa que fecha bem o dia. (O valor da travessia varia; confirme na hora.)
Cachoeira da Solidão, no sul da ilha
No extremo sul, depois do Pântano do Sul, a Praia da Solidão guarda uma cachoeira escondida na mata. É a opção para quem quer natureza rápida sem caminhada longa.
A trilha tem cerca de 400 metros, quinze minutos de percurso leve e fácil. Ela começa na própria praia da Solidão, depois da ponte, no meio das casas. A queda tem por volta de quatro metros e forma uma pequena piscina natural de água gelada e cristalina. O acesso é gratuito.
Por ficar longe do centro urbano, a Solidão costuma ser mais tranquila que o Poção. A combinação de praia deserta e cachoeira no mesmo passeio é o que a torna especial.
Cachoeira da Gurita, no Sertão do Ribeirão
Também no sul, no Sertão do Ribeirão, a Gurita reúne duas quedas d’água em meio a Mata Atlântica preservada, com poços próprios para banho.
Há mais de um caminho. O acesso mais curto tem cerca de 1,3 quilômetro só de ida, a partir do Sertão do Ribeirão. Rotas alternativas chegam a 2,8 ou 7 quilômetros, dependendo de onde se começa. A dificuldade vai de leve a moderada, um degrau acima do Poção e da Solidão. O acesso é gratuito.
É uma boa escolha para quem já conhece as cachoeiras mais fáceis e quer uma caminhada com um pouco mais de floresta e menos gente.
O que respeitar em qualquer cachoeira da ilha
Essas quedas d’água existem porque a floresta ao redor está de pé. Alguns cuidados são simples e valem para todas.
Não há lixeiras nas trilhas. Todo o lixo que você levar deve voltar com você. As rochas ficam escorregadias, sobretudo perto da queda, então vá com calçado firme e atenção redobrada com crianças.
Evite as trilhas logo após chuvas fortes: o nível do rio sobe rápido e há risco de enxurrada. Não mergulhe de cabeça em poços cuja profundidade você não conhece. E lembre que boa parte dessas áreas é unidade de conservação, com fauna nativa como cutias, quatis e tamanduás. Barulho alto e som de caixa não combinam com o lugar, ainda que o costume local nem sempre concorde.
Perguntas frequentes
Qual é a cachoeira mais fácil de acessar em Florianópolis?
O Poção, no Córrego Grande, é a de acesso mais simples. A trilha tem entre 500 e 700 metros, leva de quinze a vinte minutos e não exige preparo físico. Fica a cerca de oito quilômetros do Centro e é servida pela linha de ônibus 164.
Precisa pagar para entrar nas cachoeiras da ilha?
Não. Poção, Costa da Lagoa, Solidão e Gurita ficam em áreas públicas ou de preservação, sem controle de entrada nem cobrança de ingresso. O único custo eventual é o transporte, como o barco de retorno da Costa da Lagoa ou o ônibus até o ponto de partida.
Qual a melhor época do ano para visitar?
A água é mais abundante nos meses chuvosos, primavera e verão, quando a queda fica mais cheia e o banho mais convidativo. O verão também é a temporada de maior movimento, sobretudo no Poção. Para banho com menos gente, prefira dias de semana ou o começo da manhã.
Dá para ir com crianças?
Sim, nas trilhas leves. Poção e Solidão têm percursos curtos e planos, adequados a famílias. Ainda assim, exigem atenção nas travessias de rio e nas pedras molhadas perto da queda. Trilhas mais longas, como a da Costa da Lagoa e a da Gurita, pedem mais fôlego e planejamento.
As cachoeiras ficam perto das praias?
Algumas sim. A Solidão fica ao lado da praia de mesmo nome, no sul da ilha, e permite unir os dois passeios no mesmo dia. Já o Poção e a Costa da Lagoa ficam na porção interior da ilha, na região da Lagoa e dos maciços, longe da orla.
Conhecer a ilha por dentro
As cachoeiras dizem algo sobre Florianópolis que a praia não conta: é uma ilha de morro e floresta, com água nascendo no meio da mata a poucos quilômetros do centro. Quem vive na ilha aprende a olhar morro acima, não só para o mar.
Na Regente, essa leitura da ilha faz parte do trabalho. Antes de indicar um imóvel, entendemos o território ao redor dele: o que há a pé, o que existe morro acima, como é a vizinhança de verdade. Se você quer conhecer Florianópolis por dentro, e não só pelo cartão-postal, fale com a nossa curadoria. Conhecemos a ilha de trilha em trilha.
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