Você provavelmente já viu o nome, talvez numa placa de rua, talvez na fachada de uma escola. Poucos sabem contar a história inteira. Antonieta de Barros nasceu em Florianópolis em 11 de julho de 1901, filha de uma lavadeira, e ainda jovem escolheu a sala de aula como território. Filha da Ilha e mulher negra, transformou o ensino em causa e a palavra escrita em ofício. Quando o assunto é a história de Santa Catarina, o nome dela está entre os mais lembrados, sinal de que a Ilha reconhece a figura, mas ainda não a conhece por inteiro.
Professora, jornalista, parlamentar
Antonieta fez da educação o centro da vida. Em 1922, aos 21 anos, fundou com a irmã Leonor o Curso Particular Antonieta de Barros, voltado à alfabetização de quem o Estado costumava deixar de fora. Foi professora na Escola Normal Catarinense e diretora do Colégio Dias Velho. Ao lado da docência, ocupou um segundo território, a imprensa. Sob o pseudônimo Maria da Ilha, fundou e dirigiu o jornal A Semana, na década de 1920, e depois a revista Vida Ilhoa. Escreveu, opinou e cobrou o seu tempo num período em que a voz pública de uma mulher negra era rara em qualquer parte do país.
Foi desse chão, o da professora que também era jornalista, que veio o feito maior. Eleita em 1934 pelo Partido Liberal Catarinense, Antonieta de Barros assumiu em 1935 uma cadeira na Assembleia de Santa Catarina, na primeira eleição em que as brasileiras puderam votar e ser votadas. Tornou-se a primeira mulher negra a exercer um mandato parlamentar no Brasil. Como deputada constituinte, foi relatora dos capítulos de Educação e Cultura e de Funcionalismo da Constituição estadual de 1935. Anos depois voltaria à Assembleia por um segundo mandato.
Por que foi esquecida
Histórias assim costumam sair de cena por um conjunto de razões silenciosas. A memória oficial guardou por muito tempo os nomes de sempre, quase todos homens, quase todos brancos. Uma professora do Sul, dedicada ao trabalho miúdo de alfabetizar e formar, raramente virava monumento. Some a isso o fato de que boa parte do que Antonieta escreveu ficou dispersa em jornais e registros locais, o tipo de acervo que o tempo esconde antes de a cidade se dar conta do que perdeu.
O resultado você conhece. O nome sobrevive em ruas, escolas e homenagens, enquanto a trajetória completa fica reduzida a uma linha em livro didático, quando aparece.
Por que importa hoje
Lembrar de Antonieta de Barros não é um exercício de nostalgia. É entender que Florianópolis produziu, muito antes de o país discutir representatividade, uma mulher que abriu caminho na educação e na política ao mesmo tempo. Foi dela a lei estadual que instituiu o Dia do Professor, em 15 de outubro, a data que você celebra até hoje. Em 1937 publicou Farrapos de Ideias, o primeiro livro assinado por uma mulher negra em Santa Catarina. Cada aluno alfabetizado, cada texto publicado, cada dia de mandato foi uma resposta concreta a uma cidade que não esperava aquilo dela.
Conhecer essa história muda a forma como você olha a Ilha. Por trás do cartão-postal existe uma cidade de gente que fez coisas difíceis primeiro, e Antonieta está entre elas. Uma cidade se entende melhor quando sabe de quem herdou os próprios avanços.
Conhecer a Ilha por dentro
Na Regente, curadoria de imóveis e curadoria de memória caminham juntas. Conhecer a Ilha por dentro é saber que o endereço tem história, e que a história tem nome. O de Antonieta de Barros merece ser dito por inteiro, não apenas gravado numa placa.
Memória da Ilha, uma série da Regente.
Fontes: Memória Política de Santa Catarina — ALESC · Wikipédia — Antonieta de Barros · Fundação Cultural Palmares · Correio Braziliense
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